Rede municipal de BH amplia acolhimento e já atende estudantes migrantes de 37 nacionalidades

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Número de alunos migrantes cresceu mais de 500% desde 2024; escolas utilizam o português como língua de acolhimento para facilitar a aprendizagem e a integração.

A Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte ampliou as ações de acolhimento a estudantes migrantes e já atende 858 alunos de 37 nacionalidades, sendo 737 matriculados diretamente na Rede Municipal de Educação e 121 na Rede Parceira de Educação Infantil. Atualmente, 205 escolas recebem crianças e adolescentes de diferentes países e culturas.

O crescimento das matrículas é expressivo. Desde o início do acompanhamento sistemático, em 2024, o número de estudantes migrantes aumentou mais de 500%. O movimento ganhou força a partir de 2020, especialmente com a chegada de famílias vindas de países como Venezuela, Cuba, Bolívia e Síria.

Entre os estudantes está William, de apenas 4 anos, filho de pais chineses e nascido no Brasil. Criado em uma família que se comunica em mandarim, ele encontrou dificuldades para compreender e falar português ao chegar à Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Vila Estrela, no bairro Santo Antônio, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte.

Durante três anos, o menino recebeu acompanhamento da equipe escolar e apoio da Secretaria Municipal de Educação (Smed). Com o trabalho desenvolvido pelo Núcleo de Políticas Educacionais para Estudantes em Situação de Migração (Nupem), William passou a ampliar gradualmente o vocabulário em português e a interagir mais com os colegas e professores.

Português como língua de acolhimento

Uma das principais estratégias utilizadas pela rede é o Português como Língua de Acolhimento (PLAc). A proposta vai além do ensino tradicional da língua e busca criar condições para que crianças e adolescentes migrantes possam compreender a rotina escolar, se comunicar, aprender e estabelecer vínculos.

Na Emei Vila Estrela, uma das atividades desenvolvidas com William ocorreu no quintal da escola, utilizando árvores frutíferas e elementos do próprio ambiente escolar para estimular o aprendizado.

Antes de trabalhar com as frutas, foram abordadas formas geométricas e cores. Durante a atividade individual, William começou a repetir palavras como “quadrado”, “triângulo”, “círculo” e “retângulo”, além de identificar diferentes cores.

A professora Nícia Souza Carvalho, integrante do Nupem, conta que um dos momentos mais importantes ocorreu quando perguntou ao menino se ele gostaria de aprender português para conversar com os colegas. Depois de fazer um sinal afirmativo com a cabeça, William voltou para a atividade.

Até então, ele permanecia mais silencioso e utilizava principalmente gestos para se comunicar. A evolução chamou a atenção da equipe escolar.

“Criamos um material bilíngue, cartazes e jogos, que pode ser usado individualmente ou com toda a turma”, explica Nícia.

Além do atendimento individualizado, realizado semanalmente, o Nupem também promove atividades coletivas envolvendo música, dança, costumes e alimentação dos países de origem dos estudantes.

Escola como espaço de integração

Para a diretora da Emei Vila Estrela, Juliana Sá Brandão, a chegada dos profissionais do Nupem representou uma mudança importante no processo de aprendizagem de William.

“Os primeiros contatos foram de muita estranheza tanto para ele quanto para nós. Tudo era difícil. Até que os profissionais do Nupem começaram a trabalhar com ele”, relata.

A diretora destaca ainda a participação dos colegas no processo de adaptação. As crianças repetem palavras e brincam com William, contribuindo para que ele desenvolva a comunicação em português de maneira natural e integrada à rotina escolar.

A família também acompanha de perto a trajetória do menino. Os pais, Lee Weixi Li e Xu, chegaram ao Brasil há cerca de duas décadas. Inicialmente, pretendiam estudar português, conhecer os costumes brasileiros e retornar à China, mas o nascimento dos filhos mudou os planos.

O irmão mais velho de William, hoje com 17 anos, também estudou na Emei Vila Estrela. A boa experiência fez a família escolher novamente a instituição para o filho mais novo.

O pai destaca que William já compreende que, enquanto em casa a família utiliza o mandarim, na convivência com os colegas brasileiros é necessário utilizar o português.

Políticas de acolhimento

Segundo a professora Viviane Maia, a criação do Nupem permitiu à Secretaria Municipal de Educação estruturar ações específicas para atender os estudantes migrantes.

“As escolas, pouco a pouco, têm se estruturado para acolher melhor os mais de 800 alunos de 37 nacionalidades diferentes, matriculados na rede municipal e em creches parceiras”, afirma.

As ações envolvem desde orientações para a matrícula até apoio técnico às escolas, produção de materiais pedagógicos e suporte linguístico.

Na Emei Vila Estrela, por exemplo, foram produzidos materiais em inglês, mandarim e português para auxiliar William e também em espanhol para outro estudante estrangeiro.

A Secretaria Municipal de Educação também disponibiliza guias de orientação para o acolhimento de estudantes migrantes e materiais específicos para o atendimento de estudantes indígenas Warao.

Entre as iniciativas está ainda o ensino de Português como Língua de Acolhimento e uma turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) destinada a famílias indígenas Warao.

As medidas buscam garantir que a chegada de crianças e adolescentes de diferentes países seja acompanhada não apenas pela matrícula, mas por condições efetivas de aprendizagem, convivência e integração.

Em Belo Horizonte, cada novo estudante migrante representa também a chegada de uma nova história, cultura e experiência à comunidade escolar. A proposta da rede municipal é transformar as diferenças em oportunidades de aprendizado e fazer da escola um espaço de acolhimento para todos.

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Foto: Claudio Lacerda/ Smed

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