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Publicidade das bets: a epidemia silenciosa que está destruindo famílias brasileiras

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Assim como ocorreu com a propaganda de cigarros, o Brasil precisa discutir a proibição da publicidade das apostas esportivas. Enquanto as plataformas faturam bilhões, cresce o número de famílias endividadas, idosos assumindo dívidas de filhos e netos, lares desestruturados e um grave problema de saúde pública.

Durante décadas, a publicidade do cigarro esteve presente em todos os lugares. Ela aparecia na televisão, nas revistas, nos outdoors, patrocinava grandes eventos esportivos e até estampava os carros da Fórmula 1. Fumar era vendido como símbolo de sucesso, liberdade e status.

Com o avanço das pesquisas científicas e a comprovação dos danos causados pelo tabagismo, o Brasil passou a restringir essa publicidade. A partir da Lei nº 10.167, de 2000, as propagandas foram severamente limitadas e, nos anos seguintes, praticamente desapareceram dos meios de comunicação. A sociedade compreendeu que o interesse econômico não poderia estar acima da proteção da saúde pública.

Passadas pouco mais de duas décadas, o país enfrenta um desafio semelhante.

As apostas esportivas e os jogos on-line invadiram o cotidiano dos brasileiros. Basta assistir a uma partida de futebol para encontrar marcas de bets nas camisas dos clubes, nos estádios, nas placas de publicidade, nos programas esportivos e nos intervalos comerciais. Influenciadores digitais, artistas, ex-jogadores e celebridades divulgam diariamente plataformas de apostas para milhões de seguidores, transformando o jogo em algo aparentemente simples, divertido e lucrativo.

Mas a realidade é bem diferente da propaganda.

Enquanto essa indústria movimenta bilhões de reais todos os meses, cresce também o número de pessoas que desenvolvem dependência em jogos, comprometem toda a renda familiar e mergulham em um ciclo de dívidas praticamente impossível de romper.

Milhares de brasileiros apostam o salário do mês, utilizam o limite do cartão de crédito, recorrem ao cheque especial, fazem empréstimos bancários e até utilizam dinheiro destinado ao pagamento de contas básicas, alimentação, aluguel, educação dos filhos e medicamentos.

O sonho do ganho fácil frequentemente termina em desespero.

Especialistas em saúde mental alertam que a ludopatia — o transtorno do jogo compulsivo — já representa um problema crescente no Brasil. Casos de ansiedade, depressão, conflitos familiares, separações e até suicídios associados ao vício em apostas vêm sendo registrados, evidenciando que a discussão ultrapassa o campo econômico e passa a integrar a agenda da saúde pública.

Uma das manifestações mais contundentes sobre esse tema foi feita pela ex-ministra e ex-senadora Simone Tebet. Ao defender a proibição da publicidade das apostas esportivas, Tebet resumiu o problema em uma frase que rapidamente ganhou repercussão nacional:

"Jogo de azar não deixa ninguém rico. Não vai deixar você ganhar dinheiro. Se fosse para deixar você rico, chamaria jogo da sorte."

Na mesma manifestação, ela criticou o excesso de propagandas de bets nas transmissões esportivas e afirmou que crianças, adolescentes, trabalhadores, aposentados e famílias inteiras estão sendo diariamente bombardeados por mensagens que alimentam a falsa expectativa de enriquecimento rápido.

Segundo Tebet, o Congresso Nacional deveria aprovar uma legislação proibindo esse tipo de publicidade, exatamente como ocorreu com os cigarros, protegendo especialmente os jovens e as famílias mais vulneráveis. Os impactos já podem ser medidos na economia.

Um estudo inédito da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revela que o avanço das plataformas de apostas retirou R$ 143,8 bilhões do comércio brasileiro entre janeiro de 2023 e dezembro de 2025. O valor corresponde praticamente ao faturamento do varejo nos dois últimos períodos de Natal, a época mais importante para o setor.

Segundo o economista Fabio Bentes, responsável pelo levantamento, existe uma relação direta entre o crescimento das apostas e a queda nas vendas do comércio.

"Cada R$ 1 bilhão investido pelos brasileiros em bets impacta em uma redução de 0,7% no faturamento do varejo."

Os números impressionam. Em apenas dois anos, os gastos mensais dos brasileiros com apostas passaram de R$ 4 bilhões para R$ 29 bilhões. Dinheiro que antes circulava na economia, gerando empregos e movimentando supermercados, farmácias, lojas de roupas, papelarias, restaurantes e pequenos comércios, passou a alimentar plataformas digitais de apostas.

As consequências também aparecem dentro das casas.

A CNC estima que 269 mil famílias brasileiras passaram a enfrentar inadimplência em decorrência dos gastos com apostas. Os maiores impactos recaem justamente sobre quem possui menor renda. Famílias que vivem com até cinco salários mínimos são as mais atingidas, comprometendo recursos que deveriam garantir alimentação, moradia, educação e saúde. Hoje, um em cada quatro brasileiros possui contas em atraso há mais de 30 dias.

Mas o problema não pode ser medido apenas pelos números. Atrás de cada estatística existe uma família. Existem casamentos destruídos pelas dívidas. Pais que descobrem tarde demais que filhos comprometeram todo o patrimônio da família tentando recuperar perdas nas apostas. Filhos que escondem empréstimos e financiamentos. Idosos aposentados que assumem empréstimos consignados para quitar dívidas de filhos e netos, comprometendo a renda que deveria garantir uma velhice tranquila.

Há relatos de famílias que venderam veículos, utilizaram economias de uma vida inteira e até comprometeram recursos destinados ao tratamento de doenças para tentar recuperar dinheiro perdido em plataformas de apostas.

Crianças também acabam pagando essa conta.

Quando falta dinheiro para alimentação, material escolar, roupas ou medicamentos porque a renda familiar foi consumida pelas apostas, quem mais sofre são justamente aqueles que não fizeram nenhuma aposta. É impossível ignorar a força econômica desse mercado.

As casas de apostas investem centenas de milhões de reais em publicidade, patrocinam clubes, campeonatos, emissoras de televisão, sites esportivos e influenciadores digitais. Essa exposição permanente normaliza o jogo de azar e cria a falsa impressão de que apostar faz parte do cotidiano e representa uma oportunidade real de melhorar de vida.

A pergunta que precisa ser feita é simples:

Quem realmente ganha com tudo isso?

Certamente não é o trabalhador que perde o salário tentando recuperar prejuízos. Não é a criança que vê faltar comida dentro de casa. Não é o aposentado que assume empréstimos para salvar financeiramente filhos e netos. Não é a família que perde a paz por causa das dívidas.

Assim como aconteceu com a publicidade do cigarro, talvez tenha chegado o momento de o Brasil discutir seriamente a proibição da propaganda das bets em qualquer meio de comunicação.

Camisas de clubes de futebol.
Estádios.
Programas esportivos.
Aplicativos.
Sites.
Redes sociais.
Influenciadores digitais.
Artistas.
Celebridades.

A medida não impediria a existência das empresas autorizadas a operar no país, mas reduziria o incentivo permanente ao jogo, especialmente entre jovens e pessoas em situação de maior vulnerabilidade financeira.

Quando bilhões de reais deixam de circular na economia produtiva, centenas de milhares de famílias entram em inadimplência, idosos assumem dívidas de filhos e netos, crianças sofrem as consequências da falta de recursos dentro de casa e o vício em apostas se transforma em um problema de saúde pública, discutir limites para a publicidade deixa de ser uma questão econômica.

Passa a ser uma obrigação do Estado na proteção das famílias brasileiras.

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Foto: Fabiano Domingues/PBH

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