Jovem gênio da Maré, que criou jogo após curso de Harvard, hoje vive em abrigo com a mãe

DESTAQUECIDADEEDUCAÇÃO

Aos 10 anos, Adriano Álvaro Melo, o Alvinho, já desenvolveu um jogo em inglês, participou de competições de xadrez e robótica e foi a pessoa mais jovem a receber a Medalha Pedro Ernesto. Hoje, enfrenta a falta de moradia e dificuldades financeiras ao lado da mãe, mas continua sonhando em estudar na Europa e se tornar um grande construtor de robôs.

Aos 7 anos de idade, Adriano Álvaro Melo, conhecido como Alvinho, já chamava a atenção por uma capacidade de aprendizado muito acima da média. Morador do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, o menino demonstrava desde cedo uma enorme facilidade para aprender, criar e desenvolver projetos.

Foi ainda criança que Alvinho criou o “Super Alvinho”, um jogo desenvolvido totalmente em inglês depois que participou de um curso on-line de programação da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

No jogo, um extraordinário cientista utiliza seus conhecimentos e superpoderes para construir robôs agrícolas e pesquisar maneiras de melhorar a produção e a distribuição de alimentos no planeta. A criação mostrava não apenas o domínio da programação, mas também a capacidade do menino de imaginar soluções para problemas reais.

Alvinho também se destacou no xadrez e na robótica. Participou de competições, conquistou troféus e passou a chamar a atenção de instituições de ensino e de pessoas que acompanhavam sua trajetória.

Mas, enquanto o talento do menino crescia, sua família enfrentava uma realidade completamente diferente.

Uma infância marcada por dificuldades

A mãe de Alvinho, Priscila Melo, de 42 anos, conta que a suspeita de que o filho tinha uma facilidade incomum de aprendizado surgiu quando ele tinha apenas 3 anos.

Aos 4, durante a pandemia da Covid-19, Alvinho aprendeu a ler e escrever com a ajuda do aplicativo GraphoGame, do Ministério da Educação, utilizado como ferramenta de apoio à alfabetização de crianças.

Posteriormente, um teste confirmou que o menino possuía altas habilidades.

A trajetória de Alvinho ganhou repercussão e, em dezembro de 2023, ele chegou a ser notícia por participar como palestrante de um evento sobre Pedagogia Social na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Vivendo de favor

Apesar de todo o potencial do filho, Priscila já enfrentava dificuldades para garantir uma vida estável para a família.

Ela perdeu o apartamento onde morava em Itaboraí, na Região Metropolitana do Rio, após, segundo seu relato, ser vítima de um golpe imobiliário. O episódio teria consumido o sonho da casa própria, o FGTS e a estabilidade que ela buscava proporcionar ao filho. A questão continua sendo discutida na Justiça.

Separada e responsável por Alvinho ainda pequeno, Priscila ficou sem ter onde morar.

Durante determinado período, mãe e filho passaram a viver de favores no Complexo da Maré.

Mesmo diante das dificuldades, Priscila nunca deixou de buscar oportunidades para o filho.

Em fevereiro de 2024, durante uma passagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela Maré, Alvinho conseguiu entregar ao presidente uma carta acompanhada de um projeto para a construção de uma escola destinada a atender, dentro da própria comunidade, crianças com altas habilidades como ele.

A ideia era criar um espaço onde crianças com grande potencial pudessem estudar e desenvolver seus talentos sem precisar deixar a comunidade em busca de oportunidades.

O projeto, porém, não se transformou na escola que Alvinho sonhava.

Medalha e reconhecimento

Enquanto a escola não saía do papel, Alvinho continuava acumulando experiências e conquistas.

O menino participou de competições de xadrez e robótica, ganhou troféus e, em dezembro de 2024, recebeu a Medalha Pedro Ernesto, uma das principais homenagens concedidas pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Alvinho se tornou, segundo sua família, a pessoa mais jovem a receber a comenda, em reconhecimento ao seu destaque na área da educação.

Era um momento em que o menino da Maré começava a ganhar projeção e a mostrar que poderia construir uma trajetória extraordinária.

Mas a realidade financeira da família continuava sendo um obstáculo.

A doença da mãe mudou novamente a trajetória

Em outubro do ano passado, Priscila foi diagnosticada com tuberculose resistente aos medicamentos.

Mesmo enfrentando a doença, ela tentou encontrar uma alternativa para sustentar o filho. No início de 2026, deixou o Rio de Janeiro e foi para Cabo Frio, na Região dos Lagos, em busca de uma oportunidade de trabalho.

A tentativa, entretanto, não deu certo.

Sem conseguir emprego e sem condições de arcar com as despesas cotidianas, mãe e filho acabaram em uma casa de passagem.

Sensibilizado com a história, o diretor da instituição conseguiu para Alvinho uma bolsa de estudos integral em uma escola particular.

O menino conseguiu frequentar a escola durante dois meses. Depois, porém, Priscila precisou retornar ao Rio para continuar seu tratamento de saúde na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), já que não tinha condições de fazer o acompanhamento necessário em Cabo Frio.

Alvinho, mais uma vez, teve sua rotina escolar interrompida.

Depois de passar por um abrigo na Ilha do Governador, mãe e filho encontraram acolhimento na Unidade de Reinserção Social Maria Tereza Vieira, no Grajaú, onde estão atualmente.

Da bolsa estudantil ao Bolsa Família

A situação financeira da família se tornou ainda mais delicada porque Priscila, desempregada e enfrentando problemas de saúde, também ficou impossibilitada de realizar os trabalhos informais que utilizava para complementar a renda.

Somente recentemente ela conseguiu receber a primeira parcela do Bolsa Família, no valor de R$ 650.

Também em agosto, conseguiu um cartão de alimentação destinado a paciente com tuberculose, no valor de R$ 250.

Os valores representam algum alívio, mas ainda são insuficientes diante das necessidades da família.

Priscila calcula que precise de aproximadamente R$ 50 por dia apenas para garantir as refeições de Alvinho, que possui um quadro de seletividade alimentar e pode rejeitar determinados alimentos por características como textura, cor ou aparência.

Antes disso, uma das principais fontes de renda da família era uma bolsa estudantil de R$ 1.200 mensais, obtida por Priscila por intermédio da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), com pagamentos previstos entre março e novembro.

Mesmo no abrigo, eles continuam estudando

Apesar das dificuldades, Priscila não desistiu de seus próprios sonhos nem dos sonhos do filho.

Quase todos os dias, os dois vão até o coworking de um shopping em Vila Isabel, bairro próximo ao Grajaú.

Enquanto a mãe utiliza um computador para trabalhar em sua dissertação de mestrado em Tecnologia Social, Alvinho aproveita o espaço para estudar por conta própria.

Em algumas ocasiões, eles também utilizam a área recreativa gratuita de um shopping na Tijuca.

É uma rotina improvisada, mas que mostra a determinação dos dois em não abandonar os estudos.

Priscila também mantém o sonho de concluir seu mestrado e, futuramente, fazer um doutorado na Universidade de Coimbra, em Portugal.

Alvinho continua sonhando grande

Mesmo tendo sua rotina escolar interrompida e vivendo atualmente em um abrigo, Alvinho não abandonou seus sonhos.

“Meu desejo maior é estudar na Europa e ser um grande construtor de robôs”, afirma o menino.

A frase resume a força de uma criança que, apesar das dificuldades, continua olhando para o futuro.

Seu talento já foi reconhecido em diferentes momentos. Ele aprendeu a ler muito cedo, desenvolveu um jogo em inglês, estudou programação, participou de atividades de robótica, competiu no xadrez, conquistou troféus e recebeu uma homenagem histórica da Câmara Municipal do Rio.

O que falta agora não parece ser talento.

Faltam oportunidades e condições para que esse talento possa continuar sendo desenvolvido.

“Negação dos nossos direitos humanos mais básicos”

Para Priscila, a situação que ela e o filho enfrentam ultrapassa a questão financeira.

“Hoje, vejo nossa situação como negação dos nossos direitos humanos mais básicos. Mas ainda assim a gente espera que coisas boas aconteçam”, afirma.

Mesmo diante de tantas dificuldades, ela continua trabalhando para concluir o mestrado e deseja um dia estudar na Universidade de Coimbra.

“Ainda que meus sonhos estejam distantes, quero que um dia meu filho possa realizar os dele”, diz.

A história de Alvinho mostra uma realidade que merece atenção: uma criança com altas habilidades e enorme potencial pode ter o futuro comprometido quando não encontra acesso contínuo à educação, apoio social e condições básicas de vida.

Um pedido ao presidente Lula

O Governo Federal possui programas e iniciativas voltados ao atendimento e desenvolvimento de crianças com altas habilidades e superdotação.

Por isso, fica aqui um apelo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Governo Federal para que conheçam a história de Adriano Álvaro Melo, o Alvinho, e deem uma atenção especial ao menino.

Em 2024, Alvinho já havia conseguido entregar pessoalmente ao presidente Lula uma carta com o projeto de uma escola para crianças com altas habilidades na Maré. Hoje, dois anos depois, sua situação é ainda mais delicada: o menino vive em um abrigo com a mãe, teve sua trajetória escolar interrompida e continua dependendo de oportunidades que permitam desenvolver todo o seu potencial.

Alvinho não precisa apenas de reconhecimento. Ele precisa de oportunidade, educação, apoio e condições para continuar aprendendo e realizando seus projetos.

Por isso, nosso pedido ao presidente Lula é que o Governo Federal olhe com atenção para essa história e verifique de que maneira pode ajudar Adriano Álvaro Melo, o Alvinho, e sua mãe.

Que o menino que sonha em estudar na Europa, construir robôs e usar a tecnologia para transformar vidas tenha a oportunidade de construir seu próprio futuro. Um talento como esse não pode ser perdido pela falta de oportunidades.

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Foto: Marcelo Theobald

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